5 de novembro de 2009


veios de silêncio irriquieto
antenam-se sobre os campos
do que fora indeterminado
furores de saudadesejo
aprisionam-se na promessa
de languidez incontida
e reconversa em tempo
água que não se sente
e com tudo
passa



Jaime Medeiros Jr. em "Na Ante-Sala", Editora Porto Poesia e Território das Artes. A imagem é de dentro do livro.

4 de outubro de 2009


cachorro de rua
na falta do dono
abana o rabo pra lua




Juliana Meira
A imagem é xilogravura de Renato de Mattos Motta trabalhada para o poema. Grata Renato!

18 de setembro de 2009


das minhas perspectivas
quantas eram planos quantas eram planas
será que dobraram a esquina?

andei tanto que fiz calo
e há quem olhe atravessado

também atravesso
e aperto o passo




Juliana Meira
A imagem é "Blue Nude with Hair in the Wind", obra de Henri Matisse datada de 1952.

11 de setembro de 2009


separados da cadela
cachorrinhos juntam-se
à tigela




Juliana Meira
A imagem é "Still life with three puppies", obra de Paul Gauguin datada de 1888.

2 de setembro de 2009


o sapo coaxa.
bonito? só a sapa
acha.


Juliana Meira
A imagem é "O Lago", obra de Tarsila do Amaral datada de 1928.

9 de agosto de 2009


ENTRE MORTOS DEPOIS FERIDOS
(Frank Jorge)

perdi a chave da correspondência;
e fiquei livre de um monte de contas e cortaram minha
--------------------------------------------------------------[luz

perdi a eloquência; e fiquei livre das concordâncias;
mesmo assim cortaram meu barato

perdi a chave da paciência; e libertei tantos palavrões;
e cortaram minha língua

perdi a ciência; e ganhei a arte;
mesmo assim precisei de um Tylenol 750

tem tanta traça na minha casa
que eu ri de Kafka supondo Gregor uma barata

tem tanto sol na minha área
que eu vi o Figueroa cotovelando Tarciso

tem tanta sorte estar vivo
que dizer que és importante é um desperdício

tem tanta gente na merda
que o moscaredo tá confuso e deprimido

tem tanto molho nesse chesburguer
que a maionese ficou toda em teu sorriso

tem tanta frase desnecessária
que escrevi mais esta só pro meu ouvido


Esse poema de Frank Jorge está no livro "Crocâncias Inéditas", Editora Sagra Luzzatto. A imagem é da capa do livro.

11 de julho de 2009


As folhas mortas, caídas, tortas,
foram um dia fortes, lisas, vivas,
------------hoje, esperam no chão
um cão que lhes mije em cima.



Marco Celso Viola em "Viver a paixão de cada passo", Editora Alegoria. A ilustração é de Carlos D. e faz parte do livro.

17 de junho de 2009


o sol entrou
pela fresta da cortina

súbito saiu
sem dizer onde ia


Juliana Meira
A imagem é "Karneval im Schnee", obra de Paul Klee datada de 1923.

14 de maio de 2009


Cofre
(Nei Duclós)

Amor não se manifesta
É cofre em remota estrela

Amor não diz a que veio
É chá de imprestável erva

Amor se casa em segredo
E parte sem que amanheça

Tem armadilhas de caça
Em mil quartos de despejo

Não celebra nem reitera
É quebra de juramento

Manda cartas da cadeia
Sai pela porta da frente

Amor, quem pode com ele
De carona no poema?

Amor, palavra que esconde
Os arranhões da refrega

Amor, que jamais responde
Quando, perdido, se entrega


A imagem é "The Kiss", obra de Edvard Munch datada de 1898.

5 de abril de 2009


se tudo é vão
é outra a natureza em que
res
..valo

pés no chão
pés no barro



Juliana Meira
A imagem é "The poetess", obra de Joan Miró datada de 1940.

29 de março de 2009


releio versos
amarelecidos

e por ócio ou ofício
poupo as aquarelas

cadavéricas
no livro

observo a arte
através do vidro

o sol loucamente belo

rachando a tarde
amarelo-vivo


Juliana Meira
A imagem é
"Sol Poente", obra de Tarsila do Amaral, datada de 1929.

17 de março de 2009

tempoema e eu estamos felizes da vida, pois recebemos pela coleção Palavra Viva nossa primeira publicação em livro! A primeira série da coleção conta com livros dos poetas Marco Celso Viola, Mario Pirata, Mara Faturi e Renato de Mattos Motta, com trabalhos de Wilson Cavalcanti, Rodrigo Pecci, Paulo Chimendes. A arte da capa do "poema dilema" é de Marcius Andrade. Saravá!

14 de março de 2009


Mínimos Cantos
(Apparício Silva Rillo)

II

Ao trabalho da abelha me concentro.
Mínimas asas,
vôo de flecha,
pólen.
Operária no azul,
extremo e centro.
Espada no ferrão,
doce por dentro.

IV

Solam guitarras no canto das cigarras.
Ave e não-ave,
estridula na tarde.
Veraneira cantata monocórdia
ao sol que as ilumina e nos arde.

Onde buscá-la?
Mas por que buscá-la?
se o seu canto a desenha no silêncio
e se traduz por ela quando fala?


Esses "Mínimos Cantos" estão no livro "30 Anos de poesia".

11 de fevereiro de 2009


a noite sibila
velando o escuro sono
das gentes
até que silencia
simplesmente

em sonho lhe escancaramos
a brancura dos dentes




Juliana Meira
A imagem é "Noite estrelada", obra de Van Gogh datada de 1889.

29 de janeiro de 2009

TANTA COISA
(Sidnei Schneider)


um índio de cabelos ônix
rabo-de-cavalo ao cóccix
sopra queñas em cascata
hey jude inca-trocaico

o som escala e encapela
caixas-dágua furacéus,
e pela borda da rua-rio
um táxi vermelho ri:

que faz um táxi vermelho
bem aí? o índio, o táxi,
quem sopra? estou vivo,
longamente vivo, e aqui.



Sidnei Schneider é poeta, tradutor, contista e bacharelando em Letras/Inglês pela UFRGS. Autor de "Plano de Navegação" e "Quichiligangues" editados pela Dahmer em 1999 e 2008, respectivamente. Tradutor de Versos Singelos/José Martí (SBS 1997). Participa do volume Poesia Sempre n. 14 (Biblioteca Nacional MinC, 2001), da Antologia do Sul, Poetas Contemporâneos do RS (Assembléia Legislativa, 2001) e de outras nove publicações resultantes de concursos de conto e poesia. Primeiro lugar no concurso de contos Caio Fernando Abreu (UFRGS, 2003) e primeiro lugar em poesia no concurso Talentos (UFSM, 1995), de um total de treze premiações. Mantém o blog "Umbigo do Lago" - www.umbigodolago.blogspot.com

2 de janeiro de 2009

fenece a tarde cinza
como o sopro da chaminé
em frente a casa
o cedro envelhece
.
enquanto faço versos
em minhas mãos dançam rugas
que ao contorno da escrita
obedecem aduncas
.
contemplo o balé
que tantas tardes
se encarregaram de compor
à pele em flor
.
no entanto faço versos
como os galhos encanecidos
das árvores que serenamente
seguem o vento

.

Juliana Meira
Fotografia de João Martins

1 de dezembro de 2008


na parede da sacada
a lagartixa parece borracha
de pele fininha eis sua tática:
feito fita durex
de ponta-cabeça estática
ela não tem medo
espicha espicha
faz gracejo

quer saber como?
é segredo


Juliana Meira
Imagem de Fábio Castejon

6 de novembro de 2008


deixo o reflexo
no espelho
o rosto o gosto o cheiro
avesso do que sou e vejo
fico de fora
.....sou dentro
ora


Juliana Meira
Imagem de Jocope

25 de outubro de 2008

poça d' água
um sapato. o outro
ensopados


Juliana Meira
Imagem de Alexander Demianchuk

22 de julho de 2008


---------------------------------------------Adélia Prado

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia para eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.


Grande Desejo

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o
----------------------------------------------[cachorro

e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cântigos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele,vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
pra chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.


Esses poemas de Adélia Prado estão no livro "Bagagem".

3 de julho de 2008

o florista
diziam as más línguas
era uma flor

entre rosas petúnias
margaridas
sempre tinha quem achasse
no trejeito do trabalhador
um atrevimento

todo o dia a mesma sina
nem bem amanhecia
a banca destruída
ô vida sem cor

já com o sol a pino
remendava o ganha pão
à sombra emprestada do edifício
tom sobre tom
cravos floridos

o florista
de fato era um cacto
só espinhos



Juliana Meira
A imagem é "Manacá", obra de Tarsila do Amaral.
O poema também pode ser lido em: www.vidaliteraria.zip.net

2 de julho de 2008


----o bicho alfabeto
tem vinte e três patas
----ou quase

----por onde ele passa
nascem palavras
----e frases

----com frases
se fazem asas
----palavras
o vento leve

----o bicho alfabeto
passa
----fica o que não se escreve


Paulo Leminski, em "la vie em close", editora Brasiliense.

22 de junho de 2008

dia frio
nevoeiro. o rio
também é nuvem


Juliana Meira
Foz d' Orelho, Portugal - fotografia de João Carlo.

12 de junho de 2008

na ampla tela azul
nenhuma brisa
nuvens
personagens da moldura
entorpecidas texturas uma a uma
como se lançadas a tinta
pousam
não se escuta vento
nem levanta poeira
terra chão batido
vermelho
a sua maneira o tempo
exausto de tanto ofício
dorme sob o céu de
domingo


Juliana Meira
Ruínas de São Miguel das Missões, fotografia de Wilson Icasatti Ramires.

30 de maio de 2008

inverno
invejo o rio. só ele
não sente frio
-
-
Juliana Meira
Imagem de António Lança

28 de maio de 2008

toca a janela
chuva miúda sem trégua

a cena cinza escorre
o dia é liquefeito

na estante dormem
livros de direito


Juliana Meira
Imagem de Catarina Cruz

Sonetilho de verão
(Paulo Henriques Britto)


Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A idéia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.

O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.



Esse poema de Paulo Henriques Britto está no livro "Trovar Claro", Editora Companhia das Letras. A imagem é de Jorge Palha.

21 de maio de 2008

o canto
da sala
cujo pó guarnece
vê o sol que desce
da vidraça entreaberta
desabitado ouve
a passarada o jornaleiro
o cachorro a piazada
exposto à poeira
da vida que é lá fora
na calçada
pena que o vento lhe condena
à luz míngua sorrateira
vexado ouve a gente toda
barulhenta
o canto
cala


Juliana Meira
Fotografia de Ana Franco

16 de maio de 2008


----------------------------------------Vinicius de Moraes

Estudo
(Vinicius de Moraes)

Meu sonho (o mais caro)
Seria, sem tema
Fazer um poema
Como um dia claro.

E vê-lo, fantástico
No papel pautado
Ser parte e teclado
Poético e plástico.

Com rima ou sem rima
Livre ou metrificado
- Contanto que exprima
O impropositado.

E que (o impossível
Talvez desejado)
Não fosse passível
De ser declamado.

Mas que o sonho fique
Na paz sine die
Ça c'est la musique
Avant la poésie.


Esse poema está em "Poesias coligidas" - poesia completa e prosa.

14 de maio de 2008


O amor é uma droga pesada
(Maria Rita Kehl)

Como se eu fosse velha muito velha
pela milésima vez correndo essas estradas
aqui barranco de terra vermelha ali capim-gordura
incendiado ao sol
a casa pobre bucólica só de longe
o gado magro o arame farpado o vira-lata caipira
e eu mulher muito velha
voltando mais uma vez da viagem sem esferas
com minha inútil bagagem de antigos registros
sentimentais.
brasileiros.

o amor é uma droga pesada
perde-se a exata dimensão da vida e
o retorno é lento, cheio de falsas visões
cold turkey
me quero de volta e que esses matos voltem a fazer
sentido
sinto falta do mundo sintetizado em sua ordem nos
meus
pensamentos
não esse oco reverberando
mandalas nos ossos do crânio
não a dissolução de todas as certezas
o mundo apenas a sua representação
me contendo me dizendo
a que pertenço afinal
o amor é uma droga pesada
e eu uma velhíssima mulher
gozando pela milésima vez a viagem infernal.


Maria Rita Kehl é psicanalista, poeta, ensaísta. Escreveu dentre outros, "Imprevisão do Tempo" (1979), "O Amor é uma Droga Pesada" (1983), "Processos Primários" (1996). Seu trabalho pode ser acompanhado em: www.mariaritakehl.psc.br/ Ilustra os versos "O beijo", pintura de Gustav Klimt.

12 de maio de 2008


------------ "Contes", 1986 - poema objeto de Joan Brossa.

11 de maio de 2008

a ------------- forma
pela ----------forma
não se con --forma
trans -------- forma


Juliana Meira
Imagem de António Manuel Pinto da Silva

9 de maio de 2008

UMA ESTÁTUA NO SILÊNCIO
(Pablo Neruda)


Tanto ocorre no vozerio,
tantos sinos foram escutados
quando amavam ou descobriam
ou quando se condecoravam
que desconfiei da algazarra
e vim para viver a pé
nesta zona de silêncio.

Quando despenca uma ameixa,
quando um onda desmaia,
quando rondam meninas douradas
na molície da areia,
ou quando uma sucessão
de aves imensas me precede,
em minha calada exploração
não sonha nem uiva nem troveja,
não se sussurra nem murmura:
por isso me quedei vivendo
na música do silêncio.

O ar está mudo, todavia
os automóveis resvalam
sobre algodões invisíveis
e as multidões políticas
com ademanes enluvados
transcorrem em um hemisfério
onde não voa uma mosca.

As mulheres mais tagarelas
afogaram-se nos tanques
ou navegam como cisnes,
como as núvens no céu,
e vão os trens do verão
repletos de frutas e bocas
sem um apito nem uma roda
que range, como ciclones
encadeados ao silêncio.

Os meses são como cortinas,
como taciturnas alfombras:
bailam aqui as estações
até que dorme no salão
a estátua imóvel do inverno.


Esse poema foi traduzido pela poeta Olga Savary e está no livro "O Coração Amarelo". A fotografia é de João Veríssimo.

4 de maio de 2008


sobre o papel
descansa a mão do poeta

um a um como notas
de orquestra
os versos lhe saltam à idéia

o velho maestro então lhes põe forma
rabisca contorna
verso a verso se arrisca
recita

por entre os dedos a caneta
transborda a tinta
flutua a pena
--
da mão trêmula à escrita
rege um poema




Juliana Meira

----------------------------------------------Hilda Hilst
VI

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso
Distanciado dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha no meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?

Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?


Hilda Hilst em "Júbilo, memória, noviciado da paixão".

27 de abril de 2008

poema é dilema
chega sem pressa sem tema
nem maneira que convenha
poema é paciência
r e t i c ê n c i a ..na cabeça


Juliana Meira
Imagem de Jorge Palha

26 de abril de 2008


VI
(Mario Quintana)

Avozinha Garoa vai cantando
Suas lindas histórias, à lareira.
"Era uma vez... Um dia... Eis senão quando..."
Até parece que a cidade inteira

Sob a garoa adormeceu sonhando...
Nisto, um rumor de rodas em carreira...
Clarins, ao longe... (É o Rei que anda buscando
O pezinho da Gata Borralheira!)

Cerro os olhos, a tarde cai, macia...
Aberto em meio, o livro inda não lido
Inutilmente sobre os joelhos pousa...

E a chuva um' outra história principia,
Para embalar meu coração dorido
Que está pensando, sempre, em outra cousa...


Esse poema está no livro "A Rua dos Cataventos". A fotografia é de Jorge Palha.

25 de abril de 2008

desce
e no porão
és ausente
a desvendar defuntos
aqui
da clarabóia
alheio como tu
este farol de amanhecer



Juliana Meira
Clarabóia na biblioteca pública de Porto Alegre - fotografia de Jorge Luis Stocker Jr.

O OUTRO
(Carlos Drummond de Andrade)


Como decifrar pictogramas de há dez mil anos
se nem sei decifrar
minha escrita interior?

Interrogo signos dúbios
e suas variações calidoscópicas
a cada segundo de observação.

A verdade essencial
é o desconhecido que me habita
e a cada manhã me dá um soco.

Por ele sou também observado
com ironia, desprezo, incompreensão.
E assim vivemos, se ao confronto se chama viver,
unidos, impossibilitados de desligamento,
acomodados, adversos,
roídos de infernal curiosidade.


Esse poema está no livro "Corpo". A fotografia é de Graça Loureiro.

23 de abril de 2008


TEMPOEMEIRA
(Renato de Mattos Motta)

----------------------------------------------Para Juliana Meira
O tempo, ema,
Corre corre corre
Menos no teu poema
Onde transcorre
Como tarde espreguiçosa
No lombo dum gato

Tempo - tempo - tempo
Que incendeia o dia-a-dia
Menos no teu poema
Onde é lua cheia
Na geada fria

O tempo é fera
Voraz devorando filhos
Menos no teu poema
Onde é panda pateta
Cirandando como poeta

Nosso tempo tem
Poemas
Poemas com próprio tempo
E tem uma Poemeira
Que tece teias
Na poeira do tempo



Renato de Mattos Motta é poeta, fotógrafo, ilustrador, publicitário e produtor cultural. O trabalho do autor pode ser acompanhado no endereço: www.remamo.blogspot.com/ onde publicou o poema acima.

17 de abril de 2008

não busco a palavra exata
o sentido. o sentimento
nem a pedra lançada no firmamento
ventania que represa o rio
entendimento

ou a palavra pela palavra
o sofrimento antigo. o novo
a liberdade selvagem do lobo
instinto que se quer arte
perfeição do ovo

não busco. mas encontro


Alexandre Brito é poeta, músico integrante da banda "Os PoETs", editor e produtor cultural. O poema acima, assim como outros de igual precisão e aguçada sensibilidade faz parte do inédito "Cine ABC". Do trabalho do autor destaco "O fundo do ar e outros poemas", publicado em 2004 pela Editora AMEOP e o "Circo Mágico - poemas circenses para gente pequena, média e grande", lançado na 53ª Feira do Livro de Porto Alegre pela Editora Projeto.

8 de abril de 2008


há no olho do gato
algo que não se vê
em nenhum outro

alguma coisa observa atenta
por vezes apenas contempla
noutras fera espreita
pondera


olhar feito lanterna
espectro de luz fulge
revelando traço lúgubre vertical
no abre e fecha da retina
cristal


Juliana Meira
Na foto, a Pin da Carine e do Rogério.

Pensão familiar
(Manuel Bandeira)



Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar as boninas que murcharam.
Os girassóis
-----------------amarelo!
--------------------------------------resistem.

E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.

Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
- É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.


Esse poema está no livro "Libertinagem".
Na foto Lili, irmã mais velha da Pin.

7 de março de 2008

Mi Casita
(Adauto Suannes)


És mi casa de remiendos
tan tremendos sus galpones,
tan incómodos sus soles
pués sus lunas yiran lentas.

És mi casa sin paredes,
verdes campos que se esprayan;
donde hay flores y no fructos,
y la gente tiene paz.

Está la casa abandonada
y asi quedada al reliento;
quién visita alli no queda:
sale y deja sus secretos.

Dormitorio de nostalgias,
canta el viento unas berceuses
pa ninar quién no despierta.


Adauto Suannes é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação dos Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família. Também colunista do Circus, publicado às sextas-feiras no endereço:
Escritor, poeta, cronista de uma sensibilidade arrebatadora, ao qual tenho não só admiração pelo trabalho, mas também amizade e grande alegria em partilhar versos, como os do poema acima. Ilustra o poema fotografia tirada pelo poeta, num final de tarde (poética) na Noruega.

5 de março de 2008

meia noite
lua inteira
candeia


Juliana Meira

25 de fevereiro de 2008


Tempo e Artista
(Chico Buarque)


Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela

Modelando o artista ao seu feitio
O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso

Já vestindo a pele do artista
O tempo arrebata-lhe a garganta
O velho cantor subindo ao palco
Apenas abre a voz e o tempo canta

Dança o tempo sem cessar montando
O dorso do exausto bailarino
Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito

No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista o infinito


"Tempo e Artista", canção de Chico Buarque lembra um poema e vice-versa, incrivelmente bela e tocante. Os versos formam um canto compassado, dividido em sílabas, "I-ma-gi-no-o-ar-tis-ta-num-an-fi-tea-tro-on-de-o-tem-po-é-a-gran-de-es-tre-la", apontando o artista que, ao fluir da vida, vence a voragem infinita do tempo que invade sua pele, sua voz. Aqui, o músico transborda sua capacidade expressiva, a carga emocional que arrebata o poeta.

22 de fevereiro de 2008

no papel a mão desenha letras
esculpe palavras qual o artista
a madeira entalha
abrevia
.........acentua
recua
grafia cíclica
alegoria que a cabeça fabrica
-
-
Juliana Meira
Imagem de Maria José Amorim.

20 de fevereiro de 2008


Depus a máscara e vi-me ao espelho
- Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.


Fernando Pessoa, com o pseudônimo Álvaro de Campos
Fotografia de Maria José Amorim

urso panda não gira ciranda
toca pandeiro em roda de samba
de pelagem preta e branca
com seu ziriguidum a todos espanta

-mais parece uma carranca!
fala o mestre sala à baiana

mas não há porque ter medo
acabado o enredo
amanhece a noite escura
no olhar do panda quanta ternura


Juliana Meira

16 de fevereiro de 2008

folheando um livro antigo
página por página
meus dedos colheram
a poeira das palavras


Juliana Meira
Imagem de Jorge Palha
Esse poema também está em: www.alexandre-brito.blogspot.com/


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso
pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.


Cecília Meireles

15 de fevereiro de 2008


no topo da igreja
antiga arquitetura
não mais repicam os sinos
que ela pendura

o vento sopra indiferente
não há missa nem reza de oração
nenhum vivente

hoje naquele templo
oram as sombras do pôr do sol
ora a brisa do rio

lá de cima somente
os passarinhos
badalam em prece seu assobio



Juliana Meira