24 de junho de 2015















céu de nuvens 
peregrinas

léu ou lume

da geometria


Juliana Meira
A foto fiz no Morro da Palha-PR.

27 de abril de 2015

Poema publicado na edição de outono da Revista Raimundo.

2 de novembro de 2014















da manhã angario
os pássaros

depois com sol baixo
diviso coragem e cansaço

da noite obtenho
o aço e a aragem

então forjo este poema
sem alarde

Juliana Meira
A imagem é "Polinesia, The Sky" obra de Henri Matisse, datada de 1947.

22 de julho de 2014

Projeto "Folhinha Poética". (folhinhapoetica.blogspot.com.br)

4 de maio de 2014
























quando nasce
um poema

o poeta tem

morte certeira

é possível ver

no futuro texto

a funda cicatriz

do recomeço


Juliana Meira
A imagem é "Ballerina in a Death's Head", obra de Salvador Dali datada de 1939.

15 de março de 2014

1 de janeiro de 2014
















novo ano
canto e folio

se desequilibro
é que o mundo é
rodopio bruto

novo ano
levanto e luto


Juliana Meira
A imagem é "Battle scene from the comic fantastic opera The Seafarer", Paul Klee, 1923.

3 de outubro de 2013

19 de agosto de 2013






















Pequeno jardim
(Mario Pirata)

Quando eu era pequeninho
ganhava doce e pirulito.
Agora que sou grande
eu comprei um periquito.

Trocavam as minhas fraldas
quando eu era pequeninho.
Agora que sou grande
eu lavo as minhas meias.

Um dia eu seria grande,
pensava olhando o céu.
Agora fiquei desse tamanho
e sou ainda pequeninho.


Este poema de Mario Pirata está no livro "Festaria", Editora Alcance, 2012. A imagem é "Menino com Pião", obra de Cândido Portinari datada de 1947.

14 de agosto de 2013


















folheando um livro antigo
página por página
meus dedos colheram
a poeira das palavras


Juliana Meira
A imagem é "O Poeta Pobre", obra de Carl Spitzweg, datada de 1839.

11 de julho de 2013

todas as palavras
com suas mutações
contagiam meu corpo

por isso sofro
desde a sombra
até o osso


Juliana Meira

23 de junho de 2013

















assinei contrato
com a Lua

se ela não assomar
no poema

sofro multa


Juliana Meira
A fotografia é de Sérgio Saraiva.

20 de junho de 2013

Joan Brossa, poema visual concebido em 1971 e concluído em 1982.

14 de junho de 2013

Alex Hamburger, poema publicado na Z - Revista de Poesia, agosto/setembro de 2012, Edição de Paco Cac.

28 de maio de 2013

19 de maio de 2013

A ilha do tempo
(Élvio Vargas)


O primeiro rosto que vestimos
era de argila, papel crepom
areia molhada e orvalhos
crismados por água benta.
O segundo veio com brisa
miragens e uma carne de sol
que ainda enganava a fome do corvo.
No último foi despertando
toda a pedra que esconderam
cascalho miúdo
e um sorriso frio
que no começo era postiço
e agora é real.



Esse poema de Élvio Vargas está no livro "Estações de Vigília e Sonho", Editora Gazeta, 2012. A imagem é "Night Shadows", obra de Edward Hopper datada de 1921.

13 de maio de 2013

Poema publicado no zine "The Funeral of Tears", abril de 2013, Edição de Azriel F. Dutra.

22 de abril de 2013

















faço chover
peras

elas caem em
nossas cabeças

mentalmente devoramos letras
doce possibilidade

no poema chovem peras
mas tua presença
não é verdade


Juliana Meira
A imagem é "Colores Santos", obra de Leo Lobos, datada de 2010.   

28 de março de 2013

20 de março de 2013




















Toda mulher
(Rubens Jardim)


Toda mulher é uma viagem
ao desconhecido. Igual poesia
avessa ao verso e à trucagem,
mulher é iniciação do dia,

promessa, surpresa, miragem.
De nada adiantam mapas, guias,
cenas ensaiadas ou pilhagens.
Controverso ser, mulher é via

de mão única, abismo, moagem.
É também risco máximo, magia,
caminho íngreme na paisagem.

Simplificando: mulher é linguagem,
palavra nova, imagem que anistia
o ser, o vir-a-ser e outras bobagens.



Esse poema de Rubens Jardim está em "Fora da Estante", Coleção Poesia Viva, Centro Cultural de São Paulo, 2012. A imagem é "Standing Nude with Raised Arms", obra de Henri Matisse datada de 1947.      

25 de fevereiro de 2013


















talvez receasse
o salto

fato
querendo viver viveu

do décimo ao
asfalto 


Juliana Meira, "Projeto Instante Estante", Castelinho Edições, 2012. A imagem é "Riding with Death", obra de Jean-Michel Basquiat.

20 de fevereiro de 2013















Garras negras da morte
Farpas azuis da noite
Branca coruja de tocaia
Minha mãe rezando
Na sala
Meu pai fazendo
Um cigarro de palha



Bárbara Lia, "A flor dentro da árvore", Edição do autor, 2011. A imagem é de dentro do livro.

2 de janeiro de 2013













Este poema foi traduzido para o Castelhano por Leo Lobos:
"cuanto pasa/encuanto pienso/todo es tiempo"

6 de maio de 2012


sol rompendo nevoeiro
paisagem que conheço

sueño



Juliana Meira

9 de dezembro de 2011


A VIDA ABSTRATA
(Gilberto Wallace)

Tento traçar o meu destino com uma régua,
mas a vida não me dá nenhuma trégua,
comporta-se como uma louca num triste enredo.
Eu a escondo, tal um segredo.
Ziguezagueante sorte que se arrasta por anos perdidos
numa réstea de névoa.
O rio das recordações deságua tanta datas,
nascimentos, aniversários, casamentos,
alguém se mata,
umas feitas de alegria, outras de nostalgia.
A vida, tão real, me parece abstrata.


Esse poema está no livro "Cenas de Uma Vida", 2011. A imagem é "Soft Watch at the Moment of First Explosion", de Salvador Dali, 1954.

1 de agosto de 2011


pra escrever poesia
não é necessário saber
de árvores e de pássaros

além da solidez do caule
e da sutileza do voo

tampouco saber do mar
que dele só quem sabe são os peixes
e as embarcações que se foram

pra escrever poesia
não é necessário ar ou água

necessário é que se saiba
que a poesia já está escrita
em tudo quanto haja


Juliana Meira
A foto fiz na praia do Cardoso, em Santa Catarina.

Este poema foi objeto da reflexão de Gustavo Goulart, a qual pode ser lida nos comentários do post.

3 de junho de 2011


te
atro vazio
cheio de ar
te


Juliana Meira, no "poema dilema", 2009.

29 de abril de 2011


Buraco Negro
(José Antônio Silva)


Um buraco na infância
quintal da minha memória
que eu não lembro
e não esqueço.

Um buraco fundo e negro
que procurei tapar
com terra
pedregulho caco de telha
e mais outra terra por cima.


Um poço bem estreito
que acho não tinha fim
jogava tijolo
brita com cuspe
planta de vaso quebrado
aureola de santo
areia da praia
mais pedra
e sempre faltava um tanto.


Socava a tralha com o pé
puxava terra
no caminhão
joguei um grilo
galho quebrado
minhocas
e dê-lhe pedra e mais pedra
e o bruto não fechava.

No meio dos vultos
da noite
por vezes eu me encontrava
no pátio enluarado
ao lado do cachorrinho
ao pé do buraco
ajoelhado.


Até um brinquedo joguei
um pião com pouco uso
o revólver do meu pai
um soco no meu irmão
um bolo da minha mãe
mas o vácuo não cessava.


Meia volta
volta e meia
me vem o buraco à mente
- e lá vou eu pro buraco
de volta ao inclemente.


Nuns dias até parecia
que havia diminuído
agora faltava pouco!
porém
olhando da borda
era tudo aquele pouco.


Ali já lancei folha verde
caderno velho
pedras de rim
cabelo branco
sonhos novos
até que entendi enfim:
aquele maldito só fecha
após enterrar a mim.


Na imagem, José Antônio Silva, por Edgar Vasques.

20 de março de 2011


ouço o verso
como quem dá ouvidos
a um doido varrido

ouço o verso cínico
em idioma que inda não aprendi

ouço e ouso traduzir
enquanto ele ri e crê
dilúvio de versos

donos de si
doidos pra valer


Juliana Meira
A imagem é de Hélder Paz Monteiro.

17 de janeiro de 2011


x-coração
na lancheria do parque

pedi que viesse com o teu
pra viagem


Juliana Meira
A imagem é "Hot Pursuit", obra de Paul Klee datada de 1939.

19 de outubro de 2010

pátio da casa inabitada
poço vazio
esquecido olho d'água

ao relento ventania lhe empresta fala
coberto pelo musgo visguento
eco por dentro
deserto

quem chega perto logo se assombra
na vastidão escura é a voz do poço
que sussurra




Juliana Meira
Fotografia de Filomena Ponte Silva

2 de setembro de 2010


a voz do morro
(Ronald Augusto)


rasgacéu e mausoléu de nuvens
lá vai o morro: visto que parece meio
sem jeito mas paira quando nada
um passo perene e ainda outro
sobre a cerviz viridente quase
escura dele quando toda essa brancura
em desmesura escarnece
demora-se romeira um debruar-se
opressivo de bruços

em fila gigantas velhuscas
monjas lontanas nesta variedade
de formatura solar
mancheias de velofinos grisalhos
em carícias contra o verde crestado
a cabeleira cabocla desfeita
sobre a testa do morro que se
acrioula achando a coisa toda
sem serventia e nem unzinho
cachorro latia e vaca nenhuma
mu




Esse poema está na segunda edição do livro "No Assoalho Duro", Editora Éblis, 2010. Na imagem, retrato de Ronald Augusto, por Rosa Marques.

1 de junho de 2010


desejo o poema
que lembre a cena
na sessão das dez e quarenta

desejo o poema
reprise do nosso beijo
de cinema


Juliana Meira
A imagem é do filme "Breakfast at Tiffany's" (1961) com Audrey Hepburn e George Peppard.

7 de abril de 2010


cintilam aos montes
a nuca dói de tanto olhar
parece que nunca
nunca mesmo
vão se apagar as estrelas

com a ponta dos dedos sondo uma
mais uma
por segundos as ofusco
sob o rubro cintilante
das unhas


Juliana Meira
"Starry Night Over the Rhone", Vincent van Gogh, 1888.

1 de março de 2010


COM OS OUTROS
(Paulo Hecker Filho)

No que ando pela rua
evidente é a humanidade
e em seguida eu faço parte
e nem me procuro mais.


"Nem tudo é poesia", Editora Alcance, 2001.

6 de fevereiro de 2010


a colônia de cupins trabalha
em minha mesa de centro sua casa


rente às notícias passadas
passeiam traças

e nas tomadas a muda sintonia
das formigas


enquanto o porta-retrato empoeirado
transmuda ácaros em teu descaro
na antiga fotografia



Juliana Meira
Esse poema está transcrito em linguagem Braille, onde faz parte de "Poema em Foco". A imagem é minha "grafia", foto da poeta e artista plástica Sandra Santos, organizadora da exposição que reúne os poetas Alexandre Brito, Alice Ruiz, Cairo Trindade, Cláudia Gonçalves, Dennis Radüns, Fabio Brüggmann, Glauco Mattoso, Gilberto Wallace, Jaime Medeiros Jr., Jiddu Saldanha, Juliana Meira, Liana Marques, Lau Siqueira, Mara Faturi, Mario Pirata, Nicolas Behr, Renato Mattos, Ricardo Portugal, Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto, Roseane Morais, Sandra Santos, Sidnei Schneider, Telma Scherer e Tulio H. Pereira.

20 de janeiro de 2010


eu passo
tu também
nós no mesmo passo

passeamos meu bem


Juliana Meira
A imagem é "La promenade", obra de Marc Chagall datada de 1917-18.

9 de janeiro de 2010

pipa

pandorga papagaio

cedo podaram tuas asas

num voo acanhado

saltos rasos te

repartem

céu e solo

naco

de

.

l

i

.

b

e

r

.

d

......a

.

...........d

.................e

......................

..........................

................................




Juliana Meira

4 de dezembro de 2009


pé-de-laranjeira
na ponta do galho
lua cheia



Juliana Meira
A imagem é "Full Moon", obra de Paul Klee datada de 1919.

16 de novembro de 2009


chá às cinco.
passa das seis e meia...

ela toma chá de sumiço.
ele, de cadeira.


Juliana Meira
A fotografia é de Renato Missé.

5 de novembro de 2009


veios de silêncio irriquieto
antenam-se sobre os campos
do que fora indeterminado
furores de saudadesejo
aprisionam-se na promessa
de languidez incontida
e reconversa em tempo
água que não se sente
e com tudo
passa



Jaime Medeiros Jr. em "Na Ante-Sala", Editora Porto Poesia e Território das Artes. A imagem é de dentro do livro.

4 de outubro de 2009


cachorro de rua
na falta do dono
abana o rabo pra lua




Juliana Meira
A imagem é xilogravura de Renato de Mattos Motta trabalhada para o poema. Grata Renato!

18 de setembro de 2009


das minhas perspectivas
quantas eram planos 

quantas eram planas
será que dobraram a esquina?




Juliana Meira
A imagem é "Blue Nude with Hair in the Wind", obra de Henri Matisse datada de 1952.

11 de setembro de 2009


separados da cadela
cachorrinhos juntam-se
à tigela




Juliana Meira
A imagem é "Still life with three puppies", obra de Paul Gauguin datada de 1888.

2 de setembro de 2009


o sapo coaxa.
bonito? só a

sapa acha.

Juliana Meira
A imagem é "O Lago", obra de Tarsila do Amaral datada de 1928.

9 de agosto de 2009


ENTRE MORTOS DEPOIS FERIDOS
(Frank Jorge)

perdi a chave da correspondência;
e fiquei livre de um monte de contas e cortaram minha
--------------------------------------------------------------[luz

perdi a eloquência; e fiquei livre das concordâncias;
mesmo assim cortaram meu barato

perdi a chave da paciência; e libertei tantos palavrões;
e cortaram minha língua

perdi a ciência; e ganhei a arte;
mesmo assim precisei de um Tylenol 750

tem tanta traça na minha casa
que eu ri de Kafka supondo Gregor uma barata

tem tanto sol na minha área
que eu vi o Figueroa cotovelando Tarciso

tem tanta sorte estar vivo
que dizer que és importante é um desperdício

tem tanta gente na merda
que o moscaredo tá confuso e deprimido

tem tanto molho nesse chesburguer
que a maionese ficou toda em teu sorriso

tem tanta frase desnecessária
que escrevi mais esta só pro meu ouvido


Esse poema de Frank Jorge está no livro "Crocâncias Inéditas", Editora Sagra Luzzatto. A imagem é da capa do livro.

11 de julho de 2009


As folhas mortas, caídas, tortas,
foram um dia fortes, lisas, vivas,
------------hoje, esperam no chão
um cão que lhes mije em cima.



Marco Celso Viola em "Viver a paixão de cada passo", Editora Alegoria. A ilustração é de Carlos D. e faz parte do livro.

17 de junho de 2009


o sol entrou
pela fresta da cortina

súbito saiu
sem dizer onde ia


Juliana Meira
A imagem é "Karneval im Schnee", obra de Paul Klee datada de 1923.

14 de maio de 2009


Cofre
(Nei Duclós)

Amor não se manifesta
É cofre em remota estrela

Amor não diz a que veio
É chá de imprestável erva

Amor se casa em segredo
E parte sem que amanheça

Tem armadilhas de caça
Em mil quartos de despejo

Não celebra nem reitera
É quebra de juramento

Manda cartas da cadeia
Sai pela porta da frente

Amor, quem pode com ele
De carona no poema?

Amor, palavra que esconde
Os arranhões da refrega

Amor, que jamais responde
Quando, perdido, se entrega


A imagem é "The Kiss", obra de Edvard Munch datada de 1898.

5 de abril de 2009


se tudo é vão
é outra a natureza em que
res
..valo

pés no chão
pés no barro



Juliana Meira
A imagem é "The poetess", obra de Joan Miró datada de 1940.

29 de março de 2009


releio versos
amarelecidos

e por ócio ou ofício
poupo as aquarelas

cadavéricas
no livro

observo a arte
através do vidro

o sol loucamente belo

rachando a tarde
amarelo-vivo


Juliana Meira
A imagem é
"Sol Poente", obra de Tarsila do Amaral, datada de 1929.

17 de março de 2009

tempoema e eu estamos felizes da vida, pois recebemos pela coleção Palavra Viva nossa primeira publicação em livro! A primeira série da coleção conta com livros dos poetas Marco Celso Viola, Mario Pirata, Mara Faturi e Renato de Mattos Motta, com trabalhos de Wilson Cavalcanti, Rodrigo Pecci, Paulo Chimendes. A arte da capa do "poema dilema" é de Marcius Andrade. Saravá!

14 de março de 2009


Mínimos Cantos
(Apparício Silva Rillo)

II

Ao trabalho da abelha me concentro.
Mínimas asas,
vôo de flecha,
pólen.
Operária no azul,
extremo e centro.
Espada no ferrão,
doce por dentro.

IV

Solam guitarras no canto das cigarras.
Ave e não-ave,
estridula na tarde.
Veraneira cantata monocórdia
ao sol que as ilumina e nos arde.

Onde buscá-la?
Mas por que buscá-la?
se o seu canto a desenha no silêncio
e se traduz por ela quando fala?


Esses "Mínimos Cantos" estão no livro "30 Anos de poesia".

24 de junho de 2015















céu de nuvens 
peregrinas

léu ou lume

da geometria


Juliana Meira
A foto fiz no Morro da Palha-PR.

27 de abril de 2015

Poema publicado na edição de outono da Revista Raimundo.

2 de novembro de 2014















da manhã angario
os pássaros

depois com sol baixo
diviso coragem e cansaço

da noite obtenho
o aço e a aragem

então forjo este poema
sem alarde

Juliana Meira
A imagem é "Polinesia, The Sky" obra de Henri Matisse, datada de 1947.

22 de julho de 2014

Projeto "Folhinha Poética". (folhinhapoetica.blogspot.com.br)

4 de maio de 2014
























quando nasce
um poema

o poeta tem

morte certeira

é possível ver

no futuro texto

a funda cicatriz

do recomeço


Juliana Meira
A imagem é "Ballerina in a Death's Head", obra de Salvador Dali datada de 1939.

15 de março de 2014

1 de janeiro de 2014
















novo ano
canto e folio

se desequilibro
é que o mundo é
rodopio bruto

novo ano
levanto e luto


Juliana Meira
A imagem é "Battle scene from the comic fantastic opera The Seafarer", Paul Klee, 1923.

3 de outubro de 2013

19 de agosto de 2013






















Pequeno jardim
(Mario Pirata)

Quando eu era pequeninho
ganhava doce e pirulito.
Agora que sou grande
eu comprei um periquito.

Trocavam as minhas fraldas
quando eu era pequeninho.
Agora que sou grande
eu lavo as minhas meias.

Um dia eu seria grande,
pensava olhando o céu.
Agora fiquei desse tamanho
e sou ainda pequeninho.


Este poema de Mario Pirata está no livro "Festaria", Editora Alcance, 2012. A imagem é "Menino com Pião", obra de Cândido Portinari datada de 1947.

14 de agosto de 2013


















folheando um livro antigo
página por página
meus dedos colheram
a poeira das palavras


Juliana Meira
A imagem é "O Poeta Pobre", obra de Carl Spitzweg, datada de 1839.

11 de julho de 2013

todas as palavras
com suas mutações
contagiam meu corpo

por isso sofro
desde a sombra
até o osso


Juliana Meira

23 de junho de 2013

















assinei contrato
com a Lua

se ela não assomar
no poema

sofro multa


Juliana Meira
A fotografia é de Sérgio Saraiva.

20 de junho de 2013

Joan Brossa, poema visual concebido em 1971 e concluído em 1982.

14 de junho de 2013

Alex Hamburger, poema publicado na Z - Revista de Poesia, agosto/setembro de 2012, Edição de Paco Cac.

28 de maio de 2013

19 de maio de 2013

A ilha do tempo
(Élvio Vargas)


O primeiro rosto que vestimos
era de argila, papel crepom
areia molhada e orvalhos
crismados por água benta.
O segundo veio com brisa
miragens e uma carne de sol
que ainda enganava a fome do corvo.
No último foi despertando
toda a pedra que esconderam
cascalho miúdo
e um sorriso frio
que no começo era postiço
e agora é real.



Esse poema de Élvio Vargas está no livro "Estações de Vigília e Sonho", Editora Gazeta, 2012. A imagem é "Night Shadows", obra de Edward Hopper datada de 1921.

13 de maio de 2013

Poema publicado no zine "The Funeral of Tears", abril de 2013, Edição de Azriel F. Dutra.

22 de abril de 2013

















faço chover
peras

elas caem em
nossas cabeças

mentalmente devoramos letras
doce possibilidade

no poema chovem peras
mas tua presença
não é verdade


Juliana Meira
A imagem é "Colores Santos", obra de Leo Lobos, datada de 2010.   

28 de março de 2013

20 de março de 2013




















Toda mulher
(Rubens Jardim)


Toda mulher é uma viagem
ao desconhecido. Igual poesia
avessa ao verso e à trucagem,
mulher é iniciação do dia,

promessa, surpresa, miragem.
De nada adiantam mapas, guias,
cenas ensaiadas ou pilhagens.
Controverso ser, mulher é via

de mão única, abismo, moagem.
É também risco máximo, magia,
caminho íngreme na paisagem.

Simplificando: mulher é linguagem,
palavra nova, imagem que anistia
o ser, o vir-a-ser e outras bobagens.



Esse poema de Rubens Jardim está em "Fora da Estante", Coleção Poesia Viva, Centro Cultural de São Paulo, 2012. A imagem é "Standing Nude with Raised Arms", obra de Henri Matisse datada de 1947.      

25 de fevereiro de 2013


















talvez receasse
o salto

fato
querendo viver viveu

do décimo ao
asfalto 


Juliana Meira, "Projeto Instante Estante", Castelinho Edições, 2012. A imagem é "Riding with Death", obra de Jean-Michel Basquiat.

20 de fevereiro de 2013















Garras negras da morte
Farpas azuis da noite
Branca coruja de tocaia
Minha mãe rezando
Na sala
Meu pai fazendo
Um cigarro de palha



Bárbara Lia, "A flor dentro da árvore", Edição do autor, 2011. A imagem é de dentro do livro.

2 de janeiro de 2013













Este poema foi traduzido para o Castelhano por Leo Lobos:
"cuanto pasa/encuanto pienso/todo es tiempo"

6 de maio de 2012


sol rompendo nevoeiro
paisagem que conheço

sueño



Juliana Meira

9 de dezembro de 2011


A VIDA ABSTRATA
(Gilberto Wallace)

Tento traçar o meu destino com uma régua,
mas a vida não me dá nenhuma trégua,
comporta-se como uma louca num triste enredo.
Eu a escondo, tal um segredo.
Ziguezagueante sorte que se arrasta por anos perdidos
numa réstea de névoa.
O rio das recordações deságua tanta datas,
nascimentos, aniversários, casamentos,
alguém se mata,
umas feitas de alegria, outras de nostalgia.
A vida, tão real, me parece abstrata.


Esse poema está no livro "Cenas de Uma Vida", 2011. A imagem é "Soft Watch at the Moment of First Explosion", de Salvador Dali, 1954.

1 de agosto de 2011


pra escrever poesia
não é necessário saber
de árvores e de pássaros

além da solidez do caule
e da sutileza do voo

tampouco saber do mar
que dele só quem sabe são os peixes
e as embarcações que se foram

pra escrever poesia
não é necessário ar ou água

necessário é que se saiba
que a poesia já está escrita
em tudo quanto haja


Juliana Meira
A foto fiz na praia do Cardoso, em Santa Catarina.

Este poema foi objeto da reflexão de Gustavo Goulart, a qual pode ser lida nos comentários do post.

3 de junho de 2011


te
atro vazio
cheio de ar
te


Juliana Meira, no "poema dilema", 2009.

29 de abril de 2011


Buraco Negro
(José Antônio Silva)


Um buraco na infância
quintal da minha memória
que eu não lembro
e não esqueço.

Um buraco fundo e negro
que procurei tapar
com terra
pedregulho caco de telha
e mais outra terra por cima.


Um poço bem estreito
que acho não tinha fim
jogava tijolo
brita com cuspe
planta de vaso quebrado
aureola de santo
areia da praia
mais pedra
e sempre faltava um tanto.


Socava a tralha com o pé
puxava terra
no caminhão
joguei um grilo
galho quebrado
minhocas
e dê-lhe pedra e mais pedra
e o bruto não fechava.

No meio dos vultos
da noite
por vezes eu me encontrava
no pátio enluarado
ao lado do cachorrinho
ao pé do buraco
ajoelhado.


Até um brinquedo joguei
um pião com pouco uso
o revólver do meu pai
um soco no meu irmão
um bolo da minha mãe
mas o vácuo não cessava.


Meia volta
volta e meia
me vem o buraco à mente
- e lá vou eu pro buraco
de volta ao inclemente.


Nuns dias até parecia
que havia diminuído
agora faltava pouco!
porém
olhando da borda
era tudo aquele pouco.


Ali já lancei folha verde
caderno velho
pedras de rim
cabelo branco
sonhos novos
até que entendi enfim:
aquele maldito só fecha
após enterrar a mim.


Na imagem, José Antônio Silva, por Edgar Vasques.

20 de março de 2011


ouço o verso
como quem dá ouvidos
a um doido varrido

ouço o verso cínico
em idioma que inda não aprendi

ouço e ouso traduzir
enquanto ele ri e crê
dilúvio de versos

donos de si
doidos pra valer


Juliana Meira
A imagem é de Hélder Paz Monteiro.

17 de janeiro de 2011


x-coração
na lancheria do parque

pedi que viesse com o teu
pra viagem


Juliana Meira
A imagem é "Hot Pursuit", obra de Paul Klee datada de 1939.

19 de outubro de 2010

pátio da casa inabitada
poço vazio
esquecido olho d'água

ao relento ventania lhe empresta fala
coberto pelo musgo visguento
eco por dentro
deserto

quem chega perto logo se assombra
na vastidão escura é a voz do poço
que sussurra




Juliana Meira
Fotografia de Filomena Ponte Silva

2 de setembro de 2010


a voz do morro
(Ronald Augusto)


rasgacéu e mausoléu de nuvens
lá vai o morro: visto que parece meio
sem jeito mas paira quando nada
um passo perene e ainda outro
sobre a cerviz viridente quase
escura dele quando toda essa brancura
em desmesura escarnece
demora-se romeira um debruar-se
opressivo de bruços

em fila gigantas velhuscas
monjas lontanas nesta variedade
de formatura solar
mancheias de velofinos grisalhos
em carícias contra o verde crestado
a cabeleira cabocla desfeita
sobre a testa do morro que se
acrioula achando a coisa toda
sem serventia e nem unzinho
cachorro latia e vaca nenhuma
mu




Esse poema está na segunda edição do livro "No Assoalho Duro", Editora Éblis, 2010. Na imagem, retrato de Ronald Augusto, por Rosa Marques.

1 de junho de 2010


desejo o poema
que lembre a cena
na sessão das dez e quarenta

desejo o poema
reprise do nosso beijo
de cinema


Juliana Meira
A imagem é do filme "Breakfast at Tiffany's" (1961) com Audrey Hepburn e George Peppard.

7 de abril de 2010


cintilam aos montes
a nuca dói de tanto olhar
parece que nunca
nunca mesmo
vão se apagar as estrelas

com a ponta dos dedos sondo uma
mais uma
por segundos as ofusco
sob o rubro cintilante
das unhas


Juliana Meira
"Starry Night Over the Rhone", Vincent van Gogh, 1888.

1 de março de 2010


COM OS OUTROS
(Paulo Hecker Filho)

No que ando pela rua
evidente é a humanidade
e em seguida eu faço parte
e nem me procuro mais.


"Nem tudo é poesia", Editora Alcance, 2001.

6 de fevereiro de 2010


a colônia de cupins trabalha
em minha mesa de centro sua casa


rente às notícias passadas
passeiam traças

e nas tomadas a muda sintonia
das formigas


enquanto o porta-retrato empoeirado
transmuda ácaros em teu descaro
na antiga fotografia



Juliana Meira
Esse poema está transcrito em linguagem Braille, onde faz parte de "Poema em Foco". A imagem é minha "grafia", foto da poeta e artista plástica Sandra Santos, organizadora da exposição que reúne os poetas Alexandre Brito, Alice Ruiz, Cairo Trindade, Cláudia Gonçalves, Dennis Radüns, Fabio Brüggmann, Glauco Mattoso, Gilberto Wallace, Jaime Medeiros Jr., Jiddu Saldanha, Juliana Meira, Liana Marques, Lau Siqueira, Mara Faturi, Mario Pirata, Nicolas Behr, Renato Mattos, Ricardo Portugal, Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto, Roseane Morais, Sandra Santos, Sidnei Schneider, Telma Scherer e Tulio H. Pereira.

20 de janeiro de 2010


eu passo
tu também
nós no mesmo passo

passeamos meu bem


Juliana Meira
A imagem é "La promenade", obra de Marc Chagall datada de 1917-18.

9 de janeiro de 2010

pipa

pandorga papagaio

cedo podaram tuas asas

num voo acanhado

saltos rasos te

repartem

céu e solo

naco

de

.

l

i

.

b

e

r

.

d

......a

.

...........d

.................e

......................

..........................

................................




Juliana Meira

4 de dezembro de 2009


pé-de-laranjeira
na ponta do galho
lua cheia



Juliana Meira
A imagem é "Full Moon", obra de Paul Klee datada de 1919.

16 de novembro de 2009


chá às cinco.
passa das seis e meia...

ela toma chá de sumiço.
ele, de cadeira.


Juliana Meira
A fotografia é de Renato Missé.

5 de novembro de 2009


veios de silêncio irriquieto
antenam-se sobre os campos
do que fora indeterminado
furores de saudadesejo
aprisionam-se na promessa
de languidez incontida
e reconversa em tempo
água que não se sente
e com tudo
passa



Jaime Medeiros Jr. em "Na Ante-Sala", Editora Porto Poesia e Território das Artes. A imagem é de dentro do livro.

4 de outubro de 2009


cachorro de rua
na falta do dono
abana o rabo pra lua




Juliana Meira
A imagem é xilogravura de Renato de Mattos Motta trabalhada para o poema. Grata Renato!

18 de setembro de 2009


das minhas perspectivas
quantas eram planos 

quantas eram planas
será que dobraram a esquina?




Juliana Meira
A imagem é "Blue Nude with Hair in the Wind", obra de Henri Matisse datada de 1952.

11 de setembro de 2009


separados da cadela
cachorrinhos juntam-se
à tigela




Juliana Meira
A imagem é "Still life with three puppies", obra de Paul Gauguin datada de 1888.

2 de setembro de 2009


o sapo coaxa.
bonito? só a

sapa acha.

Juliana Meira
A imagem é "O Lago", obra de Tarsila do Amaral datada de 1928.

9 de agosto de 2009


ENTRE MORTOS DEPOIS FERIDOS
(Frank Jorge)

perdi a chave da correspondência;
e fiquei livre de um monte de contas e cortaram minha
--------------------------------------------------------------[luz

perdi a eloquência; e fiquei livre das concordâncias;
mesmo assim cortaram meu barato

perdi a chave da paciência; e libertei tantos palavrões;
e cortaram minha língua

perdi a ciência; e ganhei a arte;
mesmo assim precisei de um Tylenol 750

tem tanta traça na minha casa
que eu ri de Kafka supondo Gregor uma barata

tem tanto sol na minha área
que eu vi o Figueroa cotovelando Tarciso

tem tanta sorte estar vivo
que dizer que és importante é um desperdício

tem tanta gente na merda
que o moscaredo tá confuso e deprimido

tem tanto molho nesse chesburguer
que a maionese ficou toda em teu sorriso

tem tanta frase desnecessária
que escrevi mais esta só pro meu ouvido


Esse poema de Frank Jorge está no livro "Crocâncias Inéditas", Editora Sagra Luzzatto. A imagem é da capa do livro.

11 de julho de 2009


As folhas mortas, caídas, tortas,
foram um dia fortes, lisas, vivas,
------------hoje, esperam no chão
um cão que lhes mije em cima.



Marco Celso Viola em "Viver a paixão de cada passo", Editora Alegoria. A ilustração é de Carlos D. e faz parte do livro.

17 de junho de 2009


o sol entrou
pela fresta da cortina

súbito saiu
sem dizer onde ia


Juliana Meira
A imagem é "Karneval im Schnee", obra de Paul Klee datada de 1923.

14 de maio de 2009


Cofre
(Nei Duclós)

Amor não se manifesta
É cofre em remota estrela

Amor não diz a que veio
É chá de imprestável erva

Amor se casa em segredo
E parte sem que amanheça

Tem armadilhas de caça
Em mil quartos de despejo

Não celebra nem reitera
É quebra de juramento

Manda cartas da cadeia
Sai pela porta da frente

Amor, quem pode com ele
De carona no poema?

Amor, palavra que esconde
Os arranhões da refrega

Amor, que jamais responde
Quando, perdido, se entrega


A imagem é "The Kiss", obra de Edvard Munch datada de 1898.

5 de abril de 2009


se tudo é vão
é outra a natureza em que
res
..valo

pés no chão
pés no barro



Juliana Meira
A imagem é "The poetess", obra de Joan Miró datada de 1940.

29 de março de 2009


releio versos
amarelecidos

e por ócio ou ofício
poupo as aquarelas

cadavéricas
no livro

observo a arte
através do vidro

o sol loucamente belo

rachando a tarde
amarelo-vivo


Juliana Meira
A imagem é
"Sol Poente", obra de Tarsila do Amaral, datada de 1929.

17 de março de 2009

tempoema e eu estamos felizes da vida, pois recebemos pela coleção Palavra Viva nossa primeira publicação em livro! A primeira série da coleção conta com livros dos poetas Marco Celso Viola, Mario Pirata, Mara Faturi e Renato de Mattos Motta, com trabalhos de Wilson Cavalcanti, Rodrigo Pecci, Paulo Chimendes. A arte da capa do "poema dilema" é de Marcius Andrade. Saravá!

14 de março de 2009


Mínimos Cantos
(Apparício Silva Rillo)

II

Ao trabalho da abelha me concentro.
Mínimas asas,
vôo de flecha,
pólen.
Operária no azul,
extremo e centro.
Espada no ferrão,
doce por dentro.

IV

Solam guitarras no canto das cigarras.
Ave e não-ave,
estridula na tarde.
Veraneira cantata monocórdia
ao sol que as ilumina e nos arde.

Onde buscá-la?
Mas por que buscá-la?
se o seu canto a desenha no silêncio
e se traduz por ela quando fala?


Esses "Mínimos Cantos" estão no livro "30 Anos de poesia".